The Lord Will

Estudo bíblico

Entendendo Romanos 9: A soberania de Deus e a promessa da fé

Um estudo de Romanos 9: o pesar de Paulo por Israel, as profundezas da eleição soberana de Deus, o oleiro e o barro, a inclusão dos gentios e a justiça pela fé.

Por Ugo Candido6 min de leitura

Na carta aos Romanos, o capítulo 9 é um giro teológico monumental. Após as alturas triunfantes de Romanos 8 —que termina com a promessa inabalável de que nada pode separar os crentes do amor de Deus—, Paulo faz uma virada abrupta. Ele enfrenta uma pergunta ardente e angustiante: se as promessas de Deus são tão seguras, e quanto à nação de Israel? Muitos dos judeus, compatriotas de Paulo, haviam rejeitado Jesus como o Messias. Isso significava que as promessas de Deus a Israel haviam falhado?

Romanos 9 responde a esse dilema explorando a natureza do verdadeiro Israel, a soberania absoluta de Deus e a graça radical que abre a salvação aos gentios. É um capítulo que humilha o orgulho humano e magnifica a misericórdia divina, e não nos permite reduzir a salvação à ascendência, ao esforço ou ao mérito.

O pesar de Paulo por seu povo (Romanos 9:1–5)

Paulo começa com uma confissão crua e emotiva. Apesar do seu chamado como apóstolo dos gentios, o seu amor pelo próprio povo é tão profundo que ele expressa um desejo chocante: «eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne» (v. 3).

Em seguida, ele enumera a herança espiritual única confiada a Israel: a adoção, a glória, os pactos, a promulgação da lei, o culto e as promessas; e, acima de tudo, a linhagem pela qual «veio Cristo, que é sobre todos, Deus bendito eternamente» (v. 5). A dor de Paulo é a tragédia de um povo que possuía toda vantagem espiritual e, no entanto, em grande parte estava perdendo o Messias que estava bem diante dele. Note: uma doutrina sólida sobre a soberania de Deus não esfria o coração de Paulo pelos perdidos; ela vem envolvida em lágrimas.

Os filhos da promessa: quem é o verdadeiro Israel? (Romanos 9:6–13)

Para responder ao temor de que a palavra de Deus tivesse falhado, Paulo traça uma distinção vital: «nem todos os que são de Israel são israelitas» (v. 6). O descendente físico de Abraão não faz automaticamente parte da família espiritual de Deus. Ele o prova a partir da própria história de Israel:

  1. Isaque, não Ismael: ambos eram filhos de Abraão, mas só Isaque era «o filho da promessa» (v. 8).
  2. Jacó, não Esaú: ainda mais impressionante, antes de os gêmeos de Rebeca nascerem ou terem «feito bem ou mal», o propósito de Deus «segundo a eleição» permaneceu: «amei a Jacó e aborreci a Esaú» (vv. 11–13).

O ponto de Paulo é que o propósito eletivo de Deus não repousa nas obras humanas, na ascendência ou no mérito, mas inteiramente n'«aquele que chama» (v. 11). A promessa nunca foi herdada automaticamente; desde o princípio foi dada, não conquistada.

O oleiro e o barro: a soberania absoluta de Deus (Romanos 9:14–24)

Essa doutrina da eleição provoca de imediato a objeção que Paulo sabe que vem: «Há injustiça da parte de Deus?». A sua resposta é enfática: «De modo nenhum» (v. 14). Em seguida ele apela a duas figuras do Antigo Testamento para mostrar o direito soberano de Deus de repartir a misericórdia como lhe apraz:

  • Moisés: «Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia» (v. 15). A salvação é um dom de graça, «não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece» (v. 16).
  • Faraó: Deus o levantou «para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra» (v. 17).

Quando o opositor insiste —como pode Deus ainda culpar, se ninguém pode resistir à sua vontade?— Paulo responde com a famosa imagem do oleiro e do barro: «Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?» (v. 20). O Criador tem o direito de fazer da mesma massa tanto «vasos de ira» quanto «vasos de misericórdia», estes «que para glória já de antemão preparou» (vv. 22–23). Isso não é um Deus que se deleita na destruição; o texto sublinha que ele suporta os vasos de ira «com muita paciência», ao passo que o seu alvo é dar a conhecer «as riquezas da sua glória» nos objetos de misericórdia.

A inclusão dos gentios (Romanos 9:25–29)

A revelação surpreendente é que esses vasos de misericórdia são tomados «não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios» (v. 24). Paulo entrelaça os profetas para mostrar que esse foi o desígnio de Deus desde sempre. Citando Oseias, mostra Deus chamando os que «não eram seu povo» seus filhos amados (vv. 25–26). Citando Isaías, confirma que, ainda que Israel seja «como a areia do mar, só o remanescente será salvo» (v. 27). A graça de Deus é ampla o bastante para acolher os de fora e, ao mesmo tempo, precisa o bastante para cumprir a sua promessa a um remanescente fiel. A misericórdia amplia a família sem quebrar a palavra.

A pedra de tropeço: fé versus obras (Romanos 9:30–33)

O capítulo termina com um paradoxo que reúne todo o argumento. Os gentios, «que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça», como? «a justiça que é pela fé» (v. 30). Enquanto isso, Israel, que perseguia uma lei de justiça com verdadeiro zelo, não a alcançou, porque a buscava «como que pelas obras da lei» e não pela fé (v. 32).

Eles tropeçaram numa pedra que o próprio Deus pôs: Cristo tornou-se «pedra de tropeço e rocha de escândalo» (v. 33). Para quem tenta ganhar a sua posição diante de Deus, um Salvador crucificado que oferece graça gratuita é profundamente ofensivo: não deixa ninguém se gloriar. Contudo, o capítulo se encerra com segurança para todo aquele que nele confiar, judeu ou gentio: «todo aquele que nele crê não será confundido».

Vivendo isso

Romanos 9 nos chama a nos inclinar diante da majestosa e insondável sabedoria de Deus. Desmonta o orgulho humano, lembrando-nos de que a salvação não pode ser assegurada pela herança, pela força de vontade ou pelo esforço: «não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece» (v. 16). Mas não nos deixa como espectadores de um decreto abstrato. Seguem-se duas respostas. Primeira, como Paulo, deixe que a soberania aprofunde, em vez de amortecer, o seu amor por quem ainda não crê: a doutrina que nos humilha também deve nos enviar a orar por eles e a caminhar com as pessoas em suas dúvidas e lutas espirituais. Segunda, pare de se apoiar no seu próprio histórico e descanse inteiramente na «pedra de tropeço», Jesus Cristo, que é o nosso fundamento seguro. O argumento de Paulo continua em Romanos 10, onde essa misericórdia soberana se encontra com o chamado a crer e confessar; para continuar lendo a carta, volte ao índice de Romanos.

Referências a verificar

Estas são as passagens principais e as citações do Antigo Testamento por trás deste estudo; verifique cada uma com a sua própria tradução e com o referencial teológico da sua igreja —a interpretação de «eleição» e «soberania» aqui segue uma leitura amplamente histórica e deve ser ponderada com a sua tradição—:

  1. Isaque, o filho da promessa: Romanos 9:7–9, citando Gênesis 21:12.
  2. Jacó e Esaú escolhidos antes de nascer: Romanos 9:12–13, citando Gênesis 25:23 (e Malaquias 1:2–3).
  3. A misericórdia e Faraó: Romanos 9:15 (Êxodo 33:19) e 9:17 (Êxodo 9:16).
  4. O oleiro e o barro: Romanos 9:20–21, ecoando Isaías 29:16, Isaías 45:9 e Jeremias 18:6.
  5. «Não meu povo» e o remanescente: Romanos 9:25–26 (Oseias 2:23; 1:10) e 9:27–29 (Isaías 10:22–23; 1:9).
  6. A pedra de tropeço: Romanos 9:33, combinando Isaías 8:14 e Isaías 28:16.
Autor:
Ugo Candido
Revisado por:
Equipe Editorial da The Lord Will, Revisão editorial
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Estudo bíblico
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