The Lord Will

Estudo bíblico

Desejo, riqueza e ambição na Bíblia: ordenar, não anular

Como a Bíblia enfrenta a tensão entre desejo, oportunidade, riqueza terrena, ambição e vida espiritual: não por anulação nem por fuga, mas por ordenamento e transfiguração. Com uma comparação honesta com as vias ascéticas orientais.

Por Ugo Candido14 min de leitura

A Bíblia — e o cristianismo que dela deriva — resolve a tensão entre desejo e espírito não por anulação nem por fuga, mas por ordenamento e transfiguração.

Há uma pergunta que atravessa quase toda vida adulta de fé: o que devo fazer com o meu desejo? Com o trabalho que quero conseguir, o dinheiro de que preciso, a oportunidade que se abriu, a ambição que sinto e da qual às vezes me envergonho? Muitas espiritualidades respondem com uma subtração: deseje menos, possua menos, queira menos, e você será livre.

A resposta bíblica é diferente, e mais exigente. Diante de muitas tradições orientais e do Oriente Médio, o cristianismo mantém uma visão fundamentalmente afirmativa da criação, ainda que reconheça com realismo implacável a sua capacidade de se tornar ídolo. O problema não é que desejemos demais: é que desejamos mal, e de menos.

Em resumo

  • O desejo não é um mal a extinguir, mas uma energia a purificar e a direcionar.
  • A riqueza é ambígua: a Escritura a trata como instrumento perigoso, não como condenação automática. A chave está no uso, não na posse.
  • A ambição não deve ser apagada, mas reorientada: a pergunta não é «quanto você quer?», mas «o que você quer, e para quem?».
  • A oportunidade é tempo de responsabilidade, não fatalidade: sinergia entre a graça divina e a liberdade humana.
  • A Encarnação é o gesto teológico que sustenta tudo: Deus não apenas aprova a matéria, mas entra nela.

1. O desejo: não extinguir, mas purificar e direcionar

Nas vias ascéticas orientais. No budismo, o taṇhā — a sede, o apego — é apontado como origem do dukkha, o sofrimento; a Segunda Nobre Verdade localiza na avidez a raiz da dor, e a cessação dessa avidez abre ao Nirvana. É preciso dizer logo, por honestidade, que o budismo clássico não condena toda forma de querer: distingue a avidez gananciosa da aspiração saudável (chanda), sem a qual nenhum caminho seria possível. No hinduísmo clássico, o kāma — o desejo e o prazer — é um dos quatro fins legítimos da vida (puruṣārtha), ao lado do dharma e do artha; mas permanece subordinado ao mokṣa, a libertação, que implica desapego da māyā.

Na Bíblia. O desejo não é intrinsecamente mau. O Cântico dos Cânticos celebra o eros sem constrangimento e sem desculpas, e fala dele com uma linguagem que roça o absoluto: «o amor é forte como a morte» (Cânticos 8:6). Um livro de desejo esponsal está dentro do cânon, não às suas margens.

Para a Escritura, o problema é a cobiça desordenada — a epithymía do grego neotestamentário. O mandamento «Não cobiçarás a casa de teu próximo, não cobiçarás a mulher de teu próximo…» (Êxodo 20:17) não proíbe o desejo enquanto tal: proíbe o desejo que se constrói sobre a espoliação do outro. Não diz «não queira», diz «não queira o que é dele». É uma precisão decisiva, porque desloca o juízo da intensidade do desejo para a sua direção.

A mesma lógica governa 1 João 2:16, onde «a cobiça da carne, a cobiça dos olhos, e a ostentação da vida» não são três apetites a amputar, mas três modos pelos quais o apetite se fecha sobre si mesmo. E Tiago 4:3 diz que certas orações ficam sem resposta porque «pedis mal, para gastardes nos vossos prazeres»: não é o pedir que está errado, é o fim.

A solução cristã não é a anestesia do desejo, mas a caridade — o agápē. O desejo humano não é apagado: é inflamado e voltado para Deus e para o próximo. Agostinho resume isso numa fórmula tão célebre quanto mal compreendida: «Dilige, et quod vis fac», «Ama, e faze o que quiseres» (Comentário à Primeira Carta de João, VII, 8). Não é permissão para fazer qualquer coisa. É exatamente o contrário: se o amor é ordenado, o desejo também o é, porque um amor verdadeiro não pode querer aquilo que destrói o amado.

2. A riqueza terrena: perigo, não condenação absoluta

Nas vias ascéticas. No budismo theravāda monástico, no jainismo com o voto de aparigraha (não posse), em algumas correntes hinduístas, a riqueza é obstáculo quase por definição: o monge abandona toda propriedade. Também aqui a simetria é imperfeita — o hinduísmo clássico reconhece o artha, a prosperidade legítima, como um dos fins da vida do chefe de família —, mas a tendência ascética é nítida.

Na Bíblia. A riqueza é tratada como profundamente ambígua, e a Escritura não atenua nenhum dos dois lados.

De um lado, os avisos estão entre os mais duros de todo o Novo Testamento. «Mais fácil é passar um camelo pelo olho de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus» (Marcos 10:25). «O amor ao dinheiro é raiz de todos os tipos de males» (1 Timóteo 6:10) — note-se: o amor ao dinheiro, não o dinheiro. Ao jovem rico, Jesus pede tudo: «vai, vende o que tens, e dá aos pobres» (Mateus 19:21). E a parábola do rico e de Lázaro (Lucas 16:19-31) descreve uma condenação que não depende de um crime cometido, mas de um pobre não visto à própria porta.

De outro lado, Abraão, Jó e José de Arimateia são homens ricos e justos; as mulheres que sustentam economicamente o grupo dos discípulos (Lucas 8:1-3) usam os próprios bens para o Reino. O próprio Paulo, poucas linhas depois de definir o amor ao dinheiro como raiz de todos os males, não ordena aos ricos que deixem de ser ricos: ordena-lhes «que não sejam soberbos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas sim em Deus, que nos dá abundantemente todas as coisas que são para alegria» (1 Timóteo 6:17). É uma frase notável: o gozo dos bens é remetido ao próprio Deus, não contraposto a ele.

A chave, portanto, é o uso mais do que a posse. João Batista, quando lhe pedem indicações concretas, não prescreve a pobreza total, mas a partilha: «Quem tiver duas túnicas, reparta com o não tem; e quem tiver comida, faça da mesma maneira» (Lucas 3:11). A riqueza torna-se instrumento de comunhão, não fim.

Sob tudo isso há uma premissa de propriedade: «Ao SENHOR pertence a terra, e sua plenitude» (Salmo 24:1). O ser humano não é dono, mas administrador. A riqueza torna-se maldita quando se fecha em si mesma: quando deixa de circular, quando torna invisível o pobre, quando se transforma em identidade e deixa de ser meio.

O livro dos Provérbios formula o pedido mais equilibrado da Escritura sobre o dinheiro: «não me dês nem pobreza nem riqueza, mantém-me com o pão que me for necessário. Para que não aconteça de eu ficar farto e te negar… Nem também que eu empobreça, e venha a furtar» (Provérbios 30:8-9). Ambos os extremos são reconhecidos como espiritualmente perigosos. É uma sobriedade que nem uma teologia da prosperidade nem um desprezo pelo material conseguem conter.

3. A ambição: zelo, mas para o alto

No taoismo, a ambição é vista com desconfiança porque força o curso natural das coisas: o wu wei, o agir sem forçar, prefere acompanhar a conquistar.

Na Bíblia, a ambição é reconhecida como energia, e a energia não se condena: dirige-se. Paulo escreve: «Não sejais vagarosos em mostrardes empenho. Sede fervorosos de espírito. Servi ao Senhor» (Romanos 12:11); a palavra grega é spoudē, diligência ou zelo, de modo que o mandamento equivale a «não sejais preguiçosos no zelo». A santidade é descrita com o vocabulário do esporte de competição: «Não sabeis vós que os que correm nas competições, realmente todos correm, mas somente um leva o prêmio? Correi de tal maneira, que o alcanceis» (1 Coríntios 9:24). E ainda: «persigo o alvo, rumo ao prêmio do chamado de cima, de Deus em Cristo Jesus» (Filipenses 3:14).

A linha divisória não passa, portanto, entre «ambicioso» e «não ambicioso», mas entre a ambição para si — a soberba, a hýbris — e a ambição pelo Reino, que tem a forma do serviço. Jesus não repreende os discípulos por quererem ser grandes; ele redefine a grandeza: «quem quiser se tornar grande entre vós será o vosso assistente» (Mateus 20:26). A frase pressupõe que o desejo de grandeza existe e não pede que ele seja suprimido: pede que se reconheça onde a grandeza realmente está.

O cristianismo, em outras palavras, não pede que se deixe de querer. Pede que se queira mais e melhor.

4. A oportunidade: providência e responsabilidade

No estoicismo — que influenciou profundamente a espiritualidade ocidental — a oportunidade é aquilo que o destino entrega, e a virtude consiste em acolhê-lo bem. Riqueza e posição permanecem «indiferentes preferíveis»: podem-se ter, mas não se deve apoiar-se neles.

Na Bíblia, a oportunidade é tempo kairótico: não simples sucessão cronológica, mas um «agora» qualificado no qual Deus age e o ser humano deve responder. «Para todas as coisas há um tempo determinado, e todo propósito abaixo do céu tem seu tempo» (Eclesiastes 3:1).

Isso não é fatalismo, nem puro ativismo. É sinergia entre a graça divina e a liberdade humana, formulada por Paulo em dois versículos que devem ser lidos juntos, porque separados geram dois erros opostos: «exercei a vossa salvação com temor e tremor, pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir, conforme a sua boa vontade» (Filipenses 2:12-13). O primeiro versículo sozinho produz ansiedade de desempenho religioso; o segundo sozinho produz passividade. Juntos, dizem que a iniciativa é de Deus e que a responsabilidade é realmente nossa.

Aplicada à vida concreta, essa lógica muda o modo de ler uma oportunidade. Uma ocasião profissional, econômica ou relacional não é nem um prêmio automático da providência nem uma tentação a recusar por princípio. É uma pergunta dirigida a nós: o que você fará com ela?

5. A Encarnação como chave da síntese

O gesto teológico que distancia o cristianismo das visões mais negativas do material é a Encarnação. Deus não apenas declara boa a matéria — «E viu Deus tudo o que havia feito, e eis que era bom em grande maneira» (Gênesis 1:31) — mas entra nela: «E aquela Palavra se fez carne, e habitou entre nós» (João 1:14).

As consequências narrativas impressionam pela concretude. Jesus trabalha com as mãos (Marcos 6:3). Come e bebe a ponto de ser acusado por isso (Mateus 11:19). Participa de um banquete de casamento e ali multiplica o vinho (João 2:1-11). Aceita ser ungido com um perfume de grande valor e defende quem o derrama diante das objeções econômicas dos que o cercam (Marcos 14:3-9). O divino não está «contra» o corpóreo: assume-o e glorifica-o.

Daí nasce uma sacramentalidade do mundo. A riqueza, o desejo, a ambição, a oportunidade não são ilusões a atravessar para delas sair: são sinais que podem conduzir a Deus se lidos corretamente — e ídolos se lidos mal. Não por acaso o monge cristão não foge do mundo para se anular, mas para voltar a servi-lo com o coração livre. Também o convite de Colossenses 3:2, «Pensai nas coisas de cima, não nas que estão na terra», não é desprezo pela terra: é uma ordem de prioridade no olhar, não uma fuga do lugar em que vivemos.

Comparação sintética

AspectoVisão ascética (esquematizada)Visão bíblica e cristã
DesejoA extinguir ou transcenderA purificar e ordenar na caridade
RiquezaObstáculo à libertaçãoInstrumento e responsabilidade; perigo quando se torna ídolo
AmbiçãoPerturbação do equilíbrioEnergia a direcionar ao bem e ao serviço
Mundo materialIlusão ou sofrimentoCriação boa, ferida, a ser redimida
SoluçãoDesapego, subtração, extinçãoIntegração, transfiguração, dom

O que esta comparação afirma e o que não afirma

Uma tabela é útil e arriscada ao mesmo tempo. Vale a pena explicitar os limites da anterior.

Não afirma que as tradições orientais desprezem o mundo em bloco. O budismo distingue a avidez da aspiração; o hinduísmo clássico atribui um lugar legítimo à prosperidade e ao prazer dentro do dharma; as práticas de compaixão e de serviço são centrais em ambos. A coluna da esquerda descreve uma tendência ascética recorrente, não a totalidade de tradições milenares e internamente plurais.

Não afirma que o cristianismo seja uma religião benevolente com a riqueza. As palavras de Jesus sobre os ricos estão entre as mais severas que a literatura religiosa antiga conhece, e o cristianismo produziu as suas próprias formas radicais de renúncia — dos padres do deserto às ordens mendicantes — precisamente a partir dessas palavras.

Afirma que a estrutura da solução é diferente. Onde uma via propõe subtrair o objeto (menos desejo, menos posse, menos vontade), a Escritura propõe requalificar o fim (desejo ordenado, posse administrada, vontade entregue). Em ambos os casos chega-se a uma liberdade; mas por caminhos que não coincidem.

Perguntas frequentes

A Bíblia condena o desejo?

Não. Condena o desejo desordenado, isto é, aquele que se constrói sobre o dano ao outro ou que coloca uma criatura no lugar de Deus. Êxodo 20:17 proíbe desejar aquilo que pertence ao próximo, não desejar; e o Cântico dos Cânticos celebra abertamente o desejo esponsal.

Ser rico é pecado segundo a Bíblia?

A Escritura não define a riqueza em si como pecado, mas a trata como um perigo espiritual grave e recorrente (Marcos 10:25). O que é condenado é o amor ao dinheiro (1 Timóteo 6:10), a confiança depositada nos bens e a indiferença para com o pobre (Lucas 16:19-31). Aos ricos, Paulo pede humildade, esperança em Deus e generosidade, não a renúncia automática a tudo (1 Timóteo 6:17-18).

A ambição é compatível com a fé cristã?

Sim, se mudar de objeto. O Novo Testamento usa imagens de corrida, luta e prêmio (1 Coríntios 9:24; Filipenses 3:14) e pede zelo, não tibieza (Romanos 12:11). O que é invertido é o conteúdo da grandeza: o grande é aquele que serve (Mateus 20:26).

O que significa «buscai primeiramente o seu Reino e a sua justiça»?

Mateus 6:33 estabelece uma prioridade, não uma exclusão. «Todas estas coisas» — comida, vestimenta, aquilo de que o capítulo acaba de falar — não são declaradas indignas: são colocadas em segundo lugar. O versículo não promete prosperidade como recompensa da fé; promete que quem coloca Deus em primeiro lugar não é abandonado no restante.

O cristianismo pede que se renuncie ao mundo?

Pede que dele não se faça um absoluto. A Encarnação (João 1:14) e a bondade da criação (Gênesis 1:31) impedem ler o mundo como ilusão a ser abandonada. Algumas vocações assumem uma renúncia radical como sinal; mas o critério comum não é possuir o mínimo possível, e sim não ser possuído.

Conclusão: uma hierarquia, não uma amputação

A Bíblia não resolve a tensão fazendo desaparecer um dos dois polos. Não pede que se escolha entre espírito e matéria, entre desejo e divino. Ela propõe uma hierarquia: «Mas buscai primeiramente o seu Reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas» (Mateus 6:33).

O divino não é inimigo do terreno: é o seu fim. A riqueza, a ambição e o desejo encontram paz não quando cessam, mas quando encontram o seu lugar — quando deixam de ser o centro e se tornam expressão de um amor que não para em si mesmo, mas se doa.

É uma solução mais incômoda do que a extinção, porque deixa intacta a força daquilo que nos move e nos pede que respondamos todos os dias pela sua direção. Mas é também a única que permite olhar para uma vida cheia de trabalho, dinheiro, projetos e afetos sem ter de considerá-la um obstáculo à própria alma.

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Fontes e referências

  • Agostinho de Hipona, Comentário à Primeira Carta de João, Tratado VII, 8 («Dilige, et quod vis fac»).
  • Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus, XV, 22 (o ordo amoris, a ordem do amor).
  • Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q. 118 (sobre a avareza) e q. 131 (sobre a ambição).
  • Basílio de Cesareia, Homilia aos ricos; João Crisóstomo, Homilias sobre o rico e Lázaro.
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 2534-2557 (o décimo mandamento, a cobiça e o desapego das riquezas).
  • Rupert Gethin, The Foundations of Buddhism, Oxford University Press, 1998 (sobre taṇhā e chanda).
  • Gavin Flood, An Introduction to Hinduism, Cambridge University Press, 1996 (sobre os quatro puruṣārtha).

As citações bíblicas neste artigo são extraídas da Bíblia Livre, a tradução em português usada nas páginas bíblicas deste site.

Autor:
Ugo Candido
Revisado por:
The Lord Will Editorial Team, Revisão editorial
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